Friday, October 06, 2006

Ás sete da manhã

Sete da manhã. Pulei da cama. Taquicárdico. O apartamento vazio é a síntese do recomeço da minha vida. Solidão. O sabor da conversa da noite passada é o mesmo do café que faço. Engulo a seco o amargo do constrangimento. Nunca menti pra ela. Os eu te amo que eu disparava entre nossas conversas saiam da minha boca com vontade própria. Foi ela que me ensinou essa palavra. Pergunto a Deus qual o motivo de tanta angústia. Silêncio. Ele também deveria estar dormindo. Aguardo quieto, sentado no chão da sala, uma resposta, enquanto ela distante e atarefada destila desconfiança. Eu nunca menti pra ela. Mesmo nas insípidas manhãs de alma manchada. Um eu te amo brota soluçado. Fecho os olhos enquanto o telefone não toca.

Saturday, December 31, 2005

Agora que tudo passou

Ou poema besta

Passou.
Passou a roupa,
passou
o bife na frigideira,
passou o trem.
Passou uma história na minha cabeça.
Passou a admiração, o tesão, o susto.
Passou a dor, o sono, a fome.
Passou o passarinho.
Passou você e nada ficou.

Wednesday, December 28, 2005

Sobre o Desejo

Sim. Desejei como os fiéis desejam a vida eterna, como a depressão deseja o suicídio. Desejei entrar pelo corpo e caminhar pelas artérias como uma bactéria. Desejei um cigarro, torresmo com conhaque, maria-mole e meu pai de volta. Desejei voltar, entregar os pontos, esquecer, não existir, emudecer. Desejei sonos profundos pra não mais ver alma alguma estuprando os corpos nas madrugadas de quinta-feira, para não mais sentir lágrimas alheias escorrendo pelo meu rosto; para esquecer de vez que toda minha paixão se esvai pelo bueiro imundo da condescendência nada natural; enquanto bocetas ficam ensopadas de desilusão. Desejei esmigalhar o meu sorriso, enfeitado pelos dentes amarelados de nicotina e exalando toda a podridão dos sapos que engoli. Desejei de volta as cartas de amor que um dia quis escrever, o prazer do beijo que nunca foi dado, os sins dos não que deveriam ser ditos; desejei não conhecer aquilo que nunca me foi apresentado; vidente de um só pensamento. Desejei a avareza, a preguiça, o ódio, a inveja, a gula, o orgulho, a luxúria. Desejei um pentelho enroscado nos dentes, a mão deslizando pelo corpo, um banho morno, o gozo lascivo escorrendo por entre as coxas de Marias e Antonias, meninas do curso de corte e costura. Desejei ficar só. Desejei como se deseja o indesejável e visitei Norinha, puta de seios flácidos e que já recebeu todo espécie da porra deste mundo. Assim eu sempre desejei.

Thursday, December 15, 2005

Paixão Oriental

Um haraquiri
haikai
é morrer de saudades
sem soltar um ai.

Wednesday, November 30, 2005

Sobre a dor (para Paula Oggi)

È uma dor que amolece as pernas, estremece o corpo; é como furar os olhos com uma agulha de tricô ou ser empalada pela lança de São Jorge; é a navalha afiada rasgando o clitóris num aborto feito a sangue frio. È como ficar dependurada pelos bicos dos seios, ver o caixão do filho descendo à cova; é um lamento que grita nos músculos cansados. É dor do andar do bêbado desempregado, do faminto comendo o próprio braço, do corpo dividido ao meio pelas rodas do trem, do furo de bala nos miolos; do coração apertado peIa morsa do rancor. É dor de quem fica parado diante das próprio marasmo, que não tem trégua, que cozinha a razão em fogo brando, que não tem remédio, que agoniza, que não alivia, que despreza, sufoca; é dor incrédula, arbitrária, cruel, pessimista; é dor da pedra passando pelo canal da urina, desatinada, meIancólica, desmedida.
A dor da tristeza é tão grande que nem a Deus se consegue perdoar, ele que, estupidamente, insiste em mostrar de que maneira se pode machucar... É Uma dor bruta, que só dói quando respira.

Thursday, March 03, 2005

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA SAUDADES

O Cara era fução. Metido a inventor. Desde pequeno foi assim. Mas nunca fez nada que desse certo. De qualquer maneira vivia compenetrado, desmontando e montando coisas. Nada que construía funcionava e as tralhas acabavam entulhadas num canto da casa. Mesmo assim acreditava que era um gênio ainda a ser descoberto. Bobagem.

Começou a namorar uma vizinha. Uma mulher legal, compreensiva e simpática. Uma gostosa com quarenta e poucos anos e dotada de um furor uterino impiedoso e visceral. Adorava trepar. Parecia uma cadela no cio, uma incansável maquininha de fornicar. Na primeira semana que ficaram juntos foi legal, transaram até no quarto da mãe dele e com a velha presente. Pelo menos de corpo, pois estava doente e desenganada. Há anos vegetava.

Depois, o insaciável tesão de Marilda começou a dar problemas a Rosalvo. Primeiro apareceu o cansaço físico, em seguida a fodelança tirou-lhe o tempo para as invenções e deixou seu pau em carne viva. O médico recomendou abstinência sexual. “Um mês?!?!?!”, ela indagou num tom de decepção e perplexidade. “Você vai ter que dar um jeito, não dá pra ficar sem pinto todo esse tempo”. A ameaça surtiu efeito.

O namorado foi para sua pequena oficina. Revirou a sucata e encontrou o que procurava: uma faca elétrica de cortar pão e um inalador ultra-sônico portátil. Testou os aparelhos. Funcionaram. Colocou-os sobre a bancada, pegou as ferramentas e começou a trabalhar. Concentrado. Entregue. Tirou a lâmina da faca e, no lugar, adaptou um ferro fino de 20 centímetros. Colou o artefato na base superior do inalador, uma caixa plástica retangular medindo 15 centímetros de comprimento, 10 de largura e dez de altura.

Ligou os dois aparelhos ao mesmo tempo. Foi como imaginou. O eixo que ele adaptara, graças ao mecanismo da faca, fazia um movimento rápido pra cima e pra baixo. O inalador, por sua vez, vibrava numa seqüência forte e dinâmica. Ajeitou tudo dentro de uma caixa de sapato de uma maneira tal que apenas o ferro ficasse para fora através de um buraco que fizera na tampa de aproximadamente 6 polegadas. Os fios também saiam por um furo lateral ao lado da caixa de papelão. Faltava o principal. Serrou 30 centímetros de um cabo de vassoura. Com a furadeira fez um orifício numa das bases do cabo do tamanho e da largura do eixo de ferro. O encaixe foi exato. Na outra ponta da madeira, esculpiu detalhadamente uma glande peniana. Estava feliz. Acabara de criar um consolo vaginal de dupla ação: trepidante e com movimentos pra cima e pra baixo milimetricamente compassados.

Deu acabamento a sua engenhoca. Envernizou o falo e embrulhou a caixa em papel manteiga branco. Com uma hidrocor escreveu: “para a matar a saudades do meu caralho enquanto me recupero . Beijos nessa xoxota linda. Rosalvo”. Assim que acabou foi até a casa de Marilda presenteá-la com o consolo. A mulher ficou um tanto desconcertada ao ver aquela geringonça na sua frente. Rosalvo, ansioso para ver o efeito que o treco causaria, insistiu para que Marilda experimentasse o presente.

Meio a contra gosto a mulher levantou as saia, tirou a calcinha e sentou no sofá de pernas abertas. Rosalvo ligou o parelho pra ela. Marilda tentou enfiar aquele negócio em sua boceta. Mas a caixa de sapato incomodava entre as pernas e tirou a concentração. Ele sugeriu, então, que acomodasse o “El Demolidor” – foi assim que batizou o seu engenho - no chão e sentasse sobre ele.

A namorada seguiu as instruções. Ficou de cócoras e mirou o pedaço de pau bem no meio da xana. Foi abaixando aos poucos. Entrou tudo. Colocaram em funcionamento. Mesmo estando numa posição desconfortável, Marilda começou a gostar do brinquedo. Foi ficando encharcada, entregue a invenção. Fechou Olhos. Respiração ofegante. Êxtase puro. Marilda mexeu os quadris, Forte, rápido. Com volúpia. Obcecada. Foi o que estragou tudo. Dentro da caixa os fios se encostaram. Curto-circuito. Marilda tomou um choque na boceta e gozou despudoradamente enquanto o fogo sai pela tomada e se alastrava pela cortina.

Thursday, February 17, 2005

ROMPANTES DE KAFKA

Na pele de Josef K

Era mais uma manhã igual as últimas 180 manhãs. Acordou sem forças. Desesperançado. Levantou por levantar. Não tinha o que fazer. Estava desempregado há seis meses. Embora tivesse o curso técnico de contabilidade, não conseguia emprego. Nem mesmo de zelador ou ajudante geral. Com 44 anos já era considerado velho. Vivia às custas da mulher, a quem já não comia mais e nem beijava na boca. Passava o dia pelos cantos da casa. Quieto. Despercebido. Mocozeado. Claro que agiu para mudar essa situação. Mas todas as tentativas e oportunidades deram em merda e escoaram pela privada. Estava entregue à sorte. Acreditava que só a loteria poderia lhe devolver a dignidade. O telefone tocou.

Alô...

Eu gostaria de falar com Josef K...

O tom solene o confundiu e, por um instante, achou que não era com ele. Mas a voz do outro lado, firme e segura, esperava uma resposta. Precisava falar algo. Ainda pensou em bater o telefone, porém o nome não lhe era estranho. Ficou confuso. Respondeu:

É ele quem está falando...

Seu currículo foi pré-selecionado em nossa empresa para a vaga de auxiliar contábil. O senhor poderia comparecer em nosso escritório?

Não precisou anotar o endereço, já havia trabalhado naquela firma. Começou sua carreira ali. Se arrumou e saiu, feliz. Achava que o emprego estava no papo. Afinal, conhecia a estrutura administrativa do lugar. Conhecia também todos os macetes do balanço da empresa. Não tinha como dar errado.

Chegou uma hora antes do combinado. Ficou esperando nas imediações. Ansiedade pura. Tirou do bolso um papel com a imagem de São Expedito. Prometeu uma faixa pela graça conquistada. Imaginou a volta para casa, com a carteira assinada e um quilo de bife de fígado debaixo do braço para comemorar. Não importava o salário, queria trabalhar. Já não agüentava mais os olhares penalizados da família, os comentários dos amigos sobre a sua falta de sorte e a sugestão da sogra para que fosse tirar o encosto com os bispos da universal. “Isso é coisa do demônio”, dizia a velha. Se soubessem o quanto era humilhante ficar desempregado não agiriam dessa forma. Mas tudo vai mudar”. Concluiu.

Apresentou-se no departamento pessoal exatamente às 13 horas. Foi encaminhado para uma sala. Preencheu uma ficha. Esperou. Uma funcionária entrou e aplicou-lhe alguns testes. Depois teve que fazer um resumo da sua vida em dez linhas. Achou difícil essa parte, era muito espaço para poucas palavras. Passou por uma entrevista minuciosa. Tudo correu na mais perfeita ordem. Já contava com o emprego. “Está contratado”, anunciou a moça.

Por ser um ex-funcionário, era necessário anexar seu antigo prontuário ao novo. A mulher foi até o arquivo morto. Demorou mais do que o previsto. Voltou. Com a cara desenxabida, disse-lhe:
“Sinto muito senhor Josef, mas não posso contratá-lo”.

Ele baixou os olhos de decepção e balbuciou: Por quê?

O senhor está morto.

Achou que era brincadeira. Sorriu aliviado. A auxiliar administrativa, em tom solene, continuou:

Nessa antiga ficha do senhor consta o carimbo de óbito e o departamento jurídico da empresa baixou uma norma proibindo a reintegração de funcionários falecidos.

Josef tentou argumentar o óbvio: que ele estava vivo e o carimbo fora colocado por engano. Leni Pratos, era assim que chamava a funcionária, foi intransigente. “Ordens são ordens, não posso desobedece-las”. “Mas a senhora não está desobedecendo nada, é só uma confusão. Alguém carimbou a minha ficha por desatenção”. “Isso é uma acusação leviana, Senhor Josef. Não há um funcionário na Spot Corporation que seja desatento”. “Mas eu estou vivo”. “Não, o senhor está morto”. “Mas a senhora está me vendo”. “Quem disse isso? Não tem ninguém nesta sala, apenas eu”. “Está falando comigo”. “Estou falando sozinha, senhor Josef. Sozinha! Agora, por favor, se retire. Não tenho tempo para defuntos”.

Inconformado, pediu para falar com o supervisor. Leni negou. Porra! Como era presunçosa essa dona. Implorou. Ela cedeu, saiu e, minutos depois, voltou com um homem a tira colo. “Pois não?!”, disse-lhe o engravatado. Josef começou a explicar a situação. Foi interrompido. “Dona Leni já me contou o caso”, vamos ser mais direto. Como posso ajudar?”. “Revertendo a situação”, disse Josef.

O funcionário pegou os documentos do rapaz, o antigo prontuário, sentou-se em uma mesa e passou a comparar os dados. Analisou item por item, minuciosamente, como fazem todos os burocratas. Finalizou a tarefa e devolveu a carteira de identidade e a profissional. Ficou em silêncio por alguns instantes e chegou a uma conclusão. Deu a sentença: “as informações estão compatíveis”. O desempregado respirou desafogado. “Mas...”, continuou o supervisor, “o carimbo também é verdadeiro. Na época, eu era carimbador oficial do departamento de recursos humanos. Um exímio na função. Carimbava as fichas com habilidade e exatidão. O senhor pode comprovar neste que está em seu prontuário”, mostrou o papel ao defunto vivo, “veja, ele não está torto e ainda continua legível. Ninguém consegue carimbar desta maneira. Perfeito, o senhor não acha?”, Josef balançou a cabeça positivamente. O encarregado continuou; “minha rapidez era invejável. Carimbava duzentas fichas por minuto. Foi assim que consegui virar chefe dos carimbadores da seção e ,depois, supervisor geral. Foi muita dedicação senhor Josef. Desta forma, devo lhe dizer que o senhor realmente está morto. Não existe erro neste prontuário”.

Josef K ficou atordoado, com o rosto corado de raiva e angústia. Mudo, seus olhos encheram d’água. “Estava morto mesmo, essa situação só era plausível no inferno”, pensou. Não conseguiu emitir nenhuma palavra, apenas o coração inchou e as veias do corpo formigaram. Tremeu. Suou frio. Esmoreceu. Mesmo inconformado, já dava o emprego como perdido. Mas o homem ainda lançou-lhe uma esperança: “porém, existe uma possibilidade de erro. Não no meu carimbo, devo deixar isso bem claro. Mas pode existir a possibilidade que o pessoal que cuidava dos avisos de féretro, daquele tempo, não o informou sobre a sua própria morte”.

Leni Pratos, que não abrira mais a boca, passou a mão no telefone e discou para o gerente geral do departamento. Logo ele apareceu, era mais um pouco mais velho que os outros dois . Foi colocado a par da situação. Deduziu que realmente Josef não fora avisado do seu próprio óbito. Alegou que, na época, um memorando da superintendência suspendia tal trabalho, pois não havia sentido comunicar a morte para o próprio morto. Deixou claro também que o causador de toda aquela confusão era um defunto e que a empresa não o contrataria. Era a pá de cal sobre a ossada dos fatos.
Josef K urrou de ódio. Com o punho cerrado socou a mesa e avançou sobre o gerente. Esmurrou-lhe a cara e apertou-lhe o pescoço até que o velho ficasse roxo e sem ar. Foi segurado pelo supervisor e dona Leni que o acalmou dizendo: “acho que dá para resolver, a situação”. Josef largou o corpo na cadeira. Enquanto se acalmava, a auxiliar abriu a gaveta e puxou uma nove milímetros. Acertou-o em cheio na têmpora. “Pronto. Agora a ficha dele está correta”, comentou. Os três vriram as costas e voltaram ao trabalho.