Na pele de Josef K
Era mais uma manhã igual as últimas 180 manhãs. Acordou sem forças. Desesperançado. Levantou por levantar. Não tinha o que fazer. Estava desempregado há seis meses. Embora tivesse o curso técnico de contabilidade, não conseguia emprego. Nem mesmo de zelador ou ajudante geral. Com 44 anos já era considerado velho. Vivia às custas da mulher, a quem já não comia mais e nem beijava na boca. Passava o dia pelos cantos da casa. Quieto. Despercebido. Mocozeado. Claro que agiu para mudar essa situação. Mas todas as tentativas e oportunidades deram em merda e escoaram pela privada. Estava entregue à sorte. Acreditava que só a loteria poderia lhe devolver a dignidade. O telefone tocou.
Alô...
Eu gostaria de falar com Josef K...
O tom solene o confundiu e, por um instante, achou que não era com ele. Mas a voz do outro lado, firme e segura, esperava uma resposta. Precisava falar algo. Ainda pensou em bater o telefone, porém o nome não lhe era estranho. Ficou confuso. Respondeu:
É ele quem está falando...
Seu currículo foi pré-selecionado em nossa empresa para a vaga de auxiliar contábil. O senhor poderia comparecer em nosso escritório?
Não precisou anotar o endereço, já havia trabalhado naquela firma. Começou sua carreira ali. Se arrumou e saiu, feliz. Achava que o emprego estava no papo. Afinal, conhecia a estrutura administrativa do lugar. Conhecia também todos os macetes do balanço da empresa. Não tinha como dar errado.
Chegou uma hora antes do combinado. Ficou esperando nas imediações. Ansiedade pura. Tirou do bolso um papel com a imagem de São Expedito. Prometeu uma faixa pela graça conquistada. Imaginou a volta para casa, com a carteira assinada e um quilo de bife de fígado debaixo do braço para comemorar. Não importava o salário, queria trabalhar. Já não agüentava mais os olhares penalizados da família, os comentários dos amigos sobre a sua falta de sorte e a sugestão da sogra para que fosse tirar o encosto com os bispos da universal. “Isso é coisa do demônio”, dizia a velha. Se soubessem o quanto era humilhante ficar desempregado não agiriam dessa forma. Mas tudo vai mudar”. Concluiu.
Apresentou-se no departamento pessoal exatamente às 13 horas. Foi encaminhado para uma sala. Preencheu uma ficha. Esperou. Uma funcionária entrou e aplicou-lhe alguns testes. Depois teve que fazer um resumo da sua vida em dez linhas. Achou difícil essa parte, era muito espaço para poucas palavras. Passou por uma entrevista minuciosa. Tudo correu na mais perfeita ordem. Já contava com o emprego. “Está contratado”, anunciou a moça.
Por ser um ex-funcionário, era necessário anexar seu antigo prontuário ao novo. A mulher foi até o arquivo morto. Demorou mais do que o previsto. Voltou. Com a cara desenxabida, disse-lhe:
“Sinto muito senhor Josef, mas não posso contratá-lo”.
Ele baixou os olhos de decepção e balbuciou: Por quê?
O senhor está morto.
Achou que era brincadeira. Sorriu aliviado. A auxiliar administrativa, em tom solene, continuou:
Nessa antiga ficha do senhor consta o carimbo de óbito e o departamento jurídico da empresa baixou uma norma proibindo a reintegração de funcionários falecidos.
Josef tentou argumentar o óbvio: que ele estava vivo e o carimbo fora colocado por engano. Leni Pratos, era assim que chamava a funcionária, foi intransigente. “Ordens são ordens, não posso desobedece-las”. “Mas a senhora não está desobedecendo nada, é só uma confusão. Alguém carimbou a minha ficha por desatenção”. “Isso é uma acusação leviana, Senhor Josef. Não há um funcionário na Spot Corporation que seja desatento”. “Mas eu estou vivo”. “Não, o senhor está morto”. “Mas a senhora está me vendo”. “Quem disse isso? Não tem ninguém nesta sala, apenas eu”. “Está falando comigo”. “Estou falando sozinha, senhor Josef. Sozinha! Agora, por favor, se retire. Não tenho tempo para defuntos”.
Inconformado, pediu para falar com o supervisor. Leni negou. Porra! Como era presunçosa essa dona. Implorou. Ela cedeu, saiu e, minutos depois, voltou com um homem a tira colo. “Pois não?!”, disse-lhe o engravatado. Josef começou a explicar a situação. Foi interrompido. “Dona Leni já me contou o caso”, vamos ser mais direto. Como posso ajudar?”. “Revertendo a situação”, disse Josef.
O funcionário pegou os documentos do rapaz, o antigo prontuário, sentou-se em uma mesa e passou a comparar os dados. Analisou item por item, minuciosamente, como fazem todos os burocratas. Finalizou a tarefa e devolveu a carteira de identidade e a profissional. Ficou em silêncio por alguns instantes e chegou a uma conclusão. Deu a sentença: “as informações estão compatíveis”. O desempregado respirou desafogado. “Mas...”, continuou o supervisor, “o carimbo também é verdadeiro. Na época, eu era carimbador oficial do departamento de recursos humanos. Um exímio na função. Carimbava as fichas com habilidade e exatidão. O senhor pode comprovar neste que está em seu prontuário”, mostrou o papel ao defunto vivo, “veja, ele não está torto e ainda continua legível. Ninguém consegue carimbar desta maneira. Perfeito, o senhor não acha?”, Josef balançou a cabeça positivamente. O encarregado continuou; “minha rapidez era invejável. Carimbava duzentas fichas por minuto. Foi assim que consegui virar chefe dos carimbadores da seção e ,depois, supervisor geral. Foi muita dedicação senhor Josef. Desta forma, devo lhe dizer que o senhor realmente está morto. Não existe erro neste prontuário”.
Josef K ficou atordoado, com o rosto corado de raiva e angústia. Mudo, seus olhos encheram d’água. “Estava morto mesmo, essa situação só era plausível no inferno”, pensou. Não conseguiu emitir nenhuma palavra, apenas o coração inchou e as veias do corpo formigaram. Tremeu. Suou frio. Esmoreceu. Mesmo inconformado, já dava o emprego como perdido. Mas o homem ainda lançou-lhe uma esperança: “porém, existe uma possibilidade de erro. Não no meu carimbo, devo deixar isso bem claro. Mas pode existir a possibilidade que o pessoal que cuidava dos avisos de féretro, daquele tempo, não o informou sobre a sua própria morte”.
Leni Pratos, que não abrira mais a boca, passou a mão no telefone e discou para o gerente geral do departamento. Logo ele apareceu, era mais um pouco mais velho que os outros dois . Foi colocado a par da situação. Deduziu que realmente Josef não fora avisado do seu próprio óbito. Alegou que, na época, um memorando da superintendência suspendia tal trabalho, pois não havia sentido comunicar a morte para o próprio morto. Deixou claro também que o causador de toda aquela confusão era um defunto e que a empresa não o contrataria. Era a pá de cal sobre a ossada dos fatos.
Josef K urrou de ódio. Com o punho cerrado socou a mesa e avançou sobre o gerente. Esmurrou-lhe a cara e apertou-lhe o pescoço até que o velho ficasse roxo e sem ar. Foi segurado pelo supervisor e dona Leni que o acalmou dizendo: “acho que dá para resolver, a situação”. Josef largou o corpo na cadeira. Enquanto se acalmava, a auxiliar abriu a gaveta e puxou uma nove milímetros. Acertou-o em cheio na têmpora. “Pronto. Agora a ficha dele está correta”, comentou. Os três vriram as costas e voltaram ao trabalho.